Meses atrás, reuni alguns amigos de taça, como costumo fazer todos os anos, para comemorar meu aniversário. Dentro do que me é possível, tento seguir a seguinte máxima: “datas especiais merecem vinhos especiais”.

Dentre os vinhos que selecionei, um se destacava não necessariamente pela qualidade, mas pela idade: Marqués de Murrieta Castillo Ygay Gran Reserva Especial Cosecha 1959. Isso mesmo… há 50 anos eram colhidas as uvas para a elaboração deste vinho – um corte de Tempranillo (casta majoritária), Garnacha, Mazuelo e Graciano. Vinificado no estilo tradicional, estagiou 26 anos em carvalho americano e descansou mais 5 anos em garrafa antes de ser lançado no mercado, em 1991. No exame visual, um belo rubi atijolado muito translúcido com reflexos na cor âmbar. No nariz, frutas vermelhas ligeiramente passadas, toques especiados, canela, madeira integradíssima e discreto caráter resinoso. Na boca, delicado e elegante, com taninos macios, excelente acidez e ótima persistência. Definitivamente, um vinho de meditação.

Pois bem. Esta experiência me trouxe à cabeça aquela conhecida frase que diz que quanto mais velho um vinho, melhor ele será. A julgar pelo descrito acima, isso poderia parecer uma afirmativa indiscutível.

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Mas o fato é que todo e qualquer vinho, por mais especial e longevo que venha a ser, tem um ciclo de vida determinado, com juventude, evolução, maturidade, declínio e decrepitude. Alguns vinhos, como, por exemplo, grandes e tradicionais Bordeaux, Borgonhas, Barolos, Brunellos, Riojas e os quase eternos Portos Vintage, apenas para citar alguns, podem atravessar gerações em excelentes condições para o consumo, e realmente evoluem magnificamente, ganhando elegância e complexidade com o passar dos anos.

Mas são vinhos de exceção, e mesmo estes, em algum momento, deixarão para trás seus dias de glória. Na verdade, a grande maioria dos vinhos produzidos atualmente são para consumo num prazo de até, no máximo, 10 anos a contar da colheita. Normalmente os brancos costumam ser menos longevos que os tintos. Mas isso também não é regra. Alguns brancos são muito mais resistentes ao tempo que muitos tintos menos estruturados. Se formos falar dos brancos doces então, aí vira até covardia, pois alguns aguentam o tranco tão bem quanto os tintos mais longevos que podemos encontrar.

Dos tintos leves e despretensiosos, talvez o melhor exemplo seja o já famoso Beaujolais Nouveau, feito para ser consumido assim que chega ao mercado, e que depois de 1 ano já começa a perder suas principais características; o frescor e a vivacidade da fruta (alguns recomendam bebê-lo, de preferência, até 6 meses após o lançamento). Pra este vinho a frase correta seria: quanto mais jovem melhor.

Como podemos ver, em se tratando de vinho, generalizar, é quase sempre o caminho mais rápido para um equívoco. As variáveis são inúmeras e esse é um dos grandes encantos dessa “ciência” nem um pouco exata.

Valorizemos também os vinhos mais simples e despretensiosos, pois eles sempre terão o seu lugar, e são fundamentais para que, entre outras coisas, possamos apreciar de forma mais consciente uma garrafa realmente especial.

Por falar nisso, no dia seguinte à comemoração do meu aniversário, depois de um árduo dia de labuta, cheguei em casa, tomei uma chuveirada e abri um Corbières comprado num supermercado aqui perto de casa pra acompanhar a “janta”… vinho simples, sem maiores pretensões, mas muito bem feitinho… ou seja, perfeito pra ocasião!!!

Um brinde às felizes escolhas!!!

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Este texto foi postado no dia 29/04/2009 às 08:37 nas categorias: Blog, Destaques, Habitat. Acompanhe os comentários sobre este post utilizando RSS 2.0 feed. Você pode prosseguir para o final do post e deixar seu comentário. Pingings fechados no momento.

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