image

Dias desses, estava eu em um ônibus, aquele veículo sobre rodas de transporte de massa que utilizo com frequência, quando entrou um rapaz com dificuldades de locomoção e usando muletas.

Ele preparou-se para pedir dinheiro aos passageiros, encostou seu apoio próximo a mim e já ia encaminhar-se, saltitando, provavelmente com intenção de realçar sua dificuldade, para sua tarefa.

Nisso, o ônibus arrancou de repente e, devido ao que diz o conhecido princípio físico da inércia que os corpos tendem a permanecer no estado em que estão e que ainda funciona em nossa escala terrestre, o jovem perdeu o equilíbrio e só não caiu esborrachado no chão pois eu o segurei.

Você me agradeceu? Não? Nem ele. Sequer olhou para mim.

Em um outro dia, estava eu sentado junto ao sujeito que, em troca de dinheiro, débito em um cartão ou uma autorização prévia, permite que você viaje no coletivo. Ele estava lá, sentadinho em sua cadeira desconfortável com a catraca, ou roleta, em meio às pernas dele.

Logo após passar uma senhora pelo mecanismo, com a devida autorização do cidadão, ouviu-se o barulho de algo caindo no chão. A mulher olhou seus pertences para checar se era dela o objeto despencado, mas sua bolsa estava fechada e ela seguiu em sua busca de um lugar para sentar-se.

Olhei em volta. Próximo a cadeira do trabalhador da condução, estava lá, no chão, um aparelho de telefone celular, esse maravilhoso engenho que quase todo mundo tem e usa para os mais diversos fins, às vezes até mesmo para falar com outra pessoa.

Peguei o aparelho, mostrei-o ao ocupante do posto de controle da féria e perguntei-lhe se a ele pertencia. Ele olhou e aquiesceu com a cabeça, pegou o aparelho e guardou no bolso. Você me agradeceu? Nem ele.

Estou cansando. Tive um tipo de criação que é pouco funcional em um tempo em que é raro as pessoas dizerem obrigado. Também, quem mandou eu ajudá-las sem que elas tivessem pedido?

Não me serve mais a frase “faça o bem não importa a quem”. Não tenho vocação para mártir. Será que estou esperando uma recompensa?

Talvez Maquiavel caiba melhor, fazer o bem a quem se quer fazer o bem, ou algo parecido. Mesmo quando ajuda-se uma pessoa amiga que pede, ela acaba sentindo-se com uma dívida eterna, impagável, e afasta-se por causa disso. É quase uma maldição.

Alguns me dizem que a culpa dessa falta de delicadeza é do mercantilismo exacerbado que assola o globo. O dinheiro, cada vez mais, manda. É bem-sucedido quem é famoso e inteligente quem é rico.

Concentre-se em ganhar dinheiro e será feliz. O negócio é acumular bens a qualquer custo. Que se danem as outras pessoas! Elas nunca ajudaram mesmo. Pudera! Não podiam. Nem podem. Só pensam em si mesmas. Salve-se quem puder!

Nem mesmo a crise que começou em 2008 mudou isso. Ao menos, não ainda. E, não, ao contrário dos que defendem a tese, não creio que seja apenas problema de educação básica de um único país. A coisa está feia.

Nada de ser gentil, dar bom dia, cumprimentar, abrir porta, carregar sacola, ceder lugar ou qualquer atitude que pense no bem comum ou do outro e sem interesse próprio. Nem pequenas ações, muito menos grandes! A menos que queira ser olhado com desconfiança.

Ah, outros dirão que as novas gerações estão preocupadas em salvar o planeta. Estou meio cético. Acho que é somente marketing.

Sei lá, provavelmente o problema é meu e não do mundo. Tenho que adaptar-me.

Creative Commons License

Há lugar para gentileza no mundo, hoje? by André Sheik is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 2.5 Brazil License. Based on a work at awake.clarisinterativa.com.