Preciso parar de mentir!
Postado por Fabiana Pereira no dia 29/03/2009 em : Blog, Destaques, Ensaios
Não gosto de mentir. Não me sinto bem, acho que vou ser pega a qualquer momento e isso me faria ter que dar explicações – o que complicaria tudo infinitamente.
Alguns mentem com tamanha facilidade, que fico admirada pela capacidade do sujeito em se afastar da realidade, inventando uma outra mais conveniente no momento.
Mas mentir mal não melhora a minha situação. Sou uma mentirosa… e o pior: minto diariamente, principalmente para os meus filhos. Na verdade, eu gostaria mesmo era que minhas mentiras fossem a realidade. Pensando assim, poderia me justificar, explicando que só minto por uma boa causa.
Só que mentiras nunca resolveram nada…
Falo pros meus filhos, que só estudando muito é que terão oportunidades na vida e possibilidades reais de mudar o mundo. No entanto, cada vez mais, vejo gente muito bem preparada sendo colocada de lado por uma belo par de coxas ou por um bom acordo financeiro.
Quando as crianças se assustam com a abordagem de uma outra criança, só que esta de rua, falo que não precisam ter medo; que a outra é também só uma criança… porém maltratada e assustada… que, infelizmente, não teve os mesmos cuidados e carinhos que elas. Mas sei (mais do que elas) que esta carrega marcas profundas de dor e sofrimento; as quais, muitas vezes, imprimem de forma definitiva sentimentos de revolta e violência em sua alma, corrompendo o caráter e a personalidade desde muito jovem – sei de meninos com menos de 10 anos que matam e praticam crueldades facilmente (daí, o medo inevitável!).
Ensino que os mais velhos são confiáveis e que precisam ser respeitados, tratados com simpatia. Aí leio no jornal sobre um avô que estuprou e engravidou a neta de 9 anos… sobre outro, que submeteu uma criança à absurdos, aproveitando-se de sua necessidade imediata de dinheiro ou alimentação.
Quando me perguntam se está tudo bem, mesmo com a vida a mil, e uma centena de problemas vindo à tona ao mesmo tempo, eu (falsamente) sorrio e respondo que está tudo ótimo, que a vida não podia estar melhor.
Como? Como alguém em sã consciência pode falar que está tudo bem?
Não vivemos trancados nas nossas casas. Vivemos? Em algum momento, temos que interagir com pessoas e situações complexas além de nosso seio familiar, e, por isso, não podemos fingir que não temos responsabilidade alguma pelo sofrimento alheio. Muitos acreditam que se responsabilizar apenas pela própria família basta… e repetem de forma conveniente: – Eu faço a minha parte!.
(…)
Não posso mais manter a posição que mantenho: cômoda. Tem sido muito fácil enxergar os erros ao meu redor… mas é bem difícil participar e transformar.
Percebo que eu não sou a única mentirosa, vejo pessoas que mentem mais do que eu, só que viver mentindo dá uma agonia, uma angústia as vezes…
Preciso parar de pensar da velha forma de que, já que “eu não faço mal a ninguém”, então está tudo certo. Quando na verdade eu preciso refletir sobre: “a quem eu faço bem”?
Pois sei que só assim é que vou parar de mentir, vou ajudar a transformar os erros em acertos, as maldades em bondade e o egoísmo em caridade; tornando minhas mentiras verdades.
A verdade muitas vezes pode ser chocante ou desesperadora. Mas se não a falo, não preparo as pessoas para a realidade que, inevitavelmente, todas irão encontrar, cedo ou tarde. Assim, vou acabar formando pessoas que também mentem… para não se envolverem, para não assumirem responsabilidades, além das do próprio sangue.
Cansei… Quero viver das minhas mentiras, quero que elas se tornem realidade. Não quero aceitar (nem me acostumar) com essa realidade feia e deprimente que vejo; pelo menos, não sem me rebelar… quero que as minhas mentiras imperem. Qual o caminho, qual a fórmula, ainda não sei ao certo, mas pelo menos vou tentar descobrir.
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