– O design vai mal, obrigado! Responde um amigo (designer) quando pergunto como vão os trabalhos. A resposta soa como um desabafo, principalmente pelo tom de voz: cansado e irritadiço. Tento mudar o rumo da conversa e emendo um comentário sobre o novo site da Casa Branca, perguntando o que ele achou.

– Ah, maravilhoso… isso sim é um trabalho de comunicação! – Exclama ele.

Respondo dizendo:
– Você quer dizer, de Design.

– Não, não… de comunicação mesmo. Você viu a qualidade na distribuição do conteúdo?

– Pois então… fantástico, né? Mas o que mais me impressiona é a excelência da comunicação visual ao relatar tanta informação. Agora… você já viu o do Brasil?

A ligação fica muda por uns instantes…

– E tem?

– Acho que sim… deixa eu ver aqui…

– Putz… vamos mudar de assunto?

(…)

O restante do diálogo foi sobre a profissão – um tanto quanto técnico para se relatar aqui na revista. Mas o resultado do bate-papo é que vale a reflexão proposta aqui pelo título deste artigo.

Nos últimos anos, com o advento da computação gráfica, começou a existir uma valorização crescente da comunicação visual no Brasil, chegando-se ao ponto de desvinculá-la da faculdade de Desenho Industrial, tornando-se ela própria uma faculdade à parte.

Reúnem num espaço físico, cadeiras, mesas, quadros-negros, alguns livros vagabundos e pseudo-computadores… onde instalam cópias do Windows (pirata!), o “Fotochópi” e o “Coréudrau”. Pronto! Está erguida mais uma faculdade de Design Gráfico (ou Comunicação Visual) no Brasil.

O processo de “seleção” delas, quase sempre é “vocacionado”… ou seja; basta o sujeito desenhar bem ou ter habilidade com o equilíbrio de cores que ele se torna “apto” a frequentá-la.

A desenvoltura comunicativa, o vocabulário rico, o conhecimento histórico-social e o bom raciocínio matemático são deixados de lado imediatamente… como que fossem meros acessórios dentro do contexto.

(…)

Claro que estou descendo até o fundo do poço pra erguer o meu raciocínio… e que escolas sérias como a ESDI e a PUC, não dão importância a esta prática absurda que vem crescendo, desenfreadamente, no país - ainda que estejam sendo afetadas indiretamente por ela.

Entretanto, começo por baixo menos por digressão do que de por vigilância: Diante da banalização do processo educativo da comunicação visual no Brasil é preciso estar atento, pois esta desempenha um importante papel na qualidade das informações que circulam por aqui.

Logomarcas, cartazes, outdoors… revistas, livros e dvd’s, estão sendo disseminados na grande mídia (e também nas centenas de milhares de veículos alternativos) sem nenhum critério de avaliação da qualidade, seja no sentido acadêmico estrito – que faz com que o mercado profissional do design gráfico se mantenha elevado – ou do ponto de vista semântico informacional (há erros de português gravíssimos veiculados publicamente… e que assim ficam por um bom tempo… muitos nunca chegam a ser corrigidos).

(Nem vou entrar nas questões de semiótica e desenvolvimento de interfaces digitais, pois a questão é gravíssima… não havendo aqui, espaço para uma discussão substancial sobre o assunto.)

(…)

Um dos principais fatores que desencadearam este processo, se dá pela, “nem tão recente”, glamourização das artes visuais no Brasil, fazendo com que a profissão, Design Gráfico, fosse elevada (levianamente) ao estado de arte. Este posicionamento é defendido por profissionais de renome na profissão.

Mas a verdade é que estes se tornaram “artistas visuais”, abandonando de vez a comunicação. São cultuados no meio… e suas opiniões soam como verdades absolutas para seus seguidores… na maioria, incompetentes e vaidosos de plantão.

Design Gráfico está na moda… virou moda. Por isso é arte… a nova arte do momento!

=(

Não é não… Design é comunicação!

– Não basta saber desenhar bem para ser designer;

– Não basta ter um PC com “Coréudrau e Fotoshópi” para ser designer;

– Não basta saber criar composições e imagens “bonitas” para ser designer;

– Não basta ter lido Gombrich ou Argan para ser designer;

É preciso saber se comunicar, saber se expressar… e, sobretudo, ter consciência da importância (leia-se responsabilidade) social que o designer desempenha através do seu ofício. Existe um compromentimento ético por trás da criação – dentro deste contexto – que precisa (e deve!) ser respeitado.

A vaidade, assim como o desejo de reconhecimento pessoal, precisam estar em segundo plano, sempre! São secundárias e até dispensáveis à criação.

A coisa degringolou de vez com o surgimento dos conteúdos digitais… e da pseudo-profissão web-designer. Web-designer é a mãe! – já dizia Michel Lent Schwartzman, uma das pouquíssimas autoridades sobre o assunto aqui no país.

“Não importa a mídia em que o designer atue (jornal, televisão, mídia impressa ou internet), ele sempre continuará sendo um designer.”

Claro que, quando se utiliza aqui o termo designer, está se refirindo especificamente ao Designer Gráfico – “comunicador visual” (CV), que nas universidades sérias, representam somente uma parte da faculdade de Desenho Industrial – e não ao Designer de Produto (PP), especialmente pelo fato do trabalho deste último ir muito além da simples comunicação visual.

Meu ponto de vista, particular, é de que a formação em Design não poderia se restringir à comunicação visual de forma isolada, exigindo-se a graduação em “produto” e a posterior (ou paralela) especialização em “gráfico”.

OBS: O termo Desenho Industrial vem caindo em desuso por diversos motivos… neste site você encontrará uma breve (porém boa!) explicação sobre o assunto.

(…)

O fato é que a coisa nunca será assim… e, pelo jeito, a tendência é piorar.

Talvez seja por isso que muitos artistas de verdade – como músicos, poetas e pintores – estejam se tornado bons designers; justamente pelo fato de não precisarem se auto-afirmar como “artistas”… além de toda bagagem que já trazem com o exercício diário do ofício da arte.

E assim, muitos “profissionais” estão perdendo terreno… mal começaram e já ficam pra trás… inertes no vácuo existencial que a vaidade lhes causam.

Se ainda cabe aqui alguma dica aos formandos e estudantes de Design Gráfico, digo o seguinte: Além de sonhar, comunique-se! Tenha humildade e paciência diante da comunicação… e leve o academicismo a sério – pelo menos no que diz respeito a dignificação da profissão que você escolheu.

Ou, em breve, aquilo que hoje você chama de Design, passará a ser conhecido apenas por Desígnio.
:P

Design gráfico não é arte. É comunicação. by Marcius Alessandro Teixeira is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 2.5 Brazil License. Based on a work at awake.clarisinterativa.com.

Este texto foi postado no dia 28/03/2009 às 16:44 nas categorias: Blog, Destaques, Ensaios. Acompanhe os comentários sobre este post utilizando RSS 2.0 feed. Você pode prosseguir para o final do post e deixar seu comentário. Pingings fechados no momento.

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